Identité du sujet, interaction et mutabilité des goûts

Publié en ligne le 30 juin 2014

  • DOCUMENT I
    Luiza Helena Oliveira da Silva,
    Considerações sobre o gosto na obra de Eric Landowski

Considerações sobre o gosto na obra de Eric Landowski

Luiza Helena Oliveira da Silva

  • Universidade Federal do Tocantins/CAPES

Texte intégral

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte ?

Ferreira Gullar

Em « Traduzir-se », o poeta Ferreira Gullar fala de um sujeito que se divide em duas partes antagônicas  no seu princípio : uma que abriga a razão, « que pesa e pondera », enquanto a outra cede lugar às emoções, ao sonho, e então « delira » ; uma que é « vertigem », outra que é « linguagem ».  Os versos enumeram as divisões que dão mostras da dimensão do desafio imposto ao poeta : traduzir uma parte na outra, « questão de vida e morte ».  A arte poética teria, assim, a enfrentar a necessária tradução do sujeito na sua complexidade, respondendo às dimensões do pensar e do sentir, da unidade e dispersão que se somam no interior do ser.

Note de bas de page 1 :

 Pour une sémotique du goût, São Paulo, Centro de Pesquisas Sociossemióticas (Documentos de estudo, 6), 2013.

Partimos dos versos de Gullar para introduzir nossa discussão sobre o livro Pour une sémotique du goût, de Eric Landowski1, porque aí também encontramos uma questão que pode ser entendida na perspectiva de uma tradução : a que busca fazer a ciência ao tratar de aspectos sensíveis, relativos à experiência, como a da temática do gosto.  Nesse pequeno, porém denso livro, o sociossemioticista francês vai tratar pelo viés de uma teoria do sentido e da interação o que, num primeiro momento, parece carecer de elementos de medida e precisão, mas que deve ser traduzido, ou explicado, por uma abordagem que — como a da sociossemiótica — se inquieta pelo sentido da vida, pelo modo como os sujeitos atribuem significação ao mundo e a sua experiência com o outro.  Haveria, então, uma espécie de poética do viver, do provar e do sentir, que deveria ser considerada por uma outra poética, a do fazer teórico que vai então tentar mensurar o que parece pouco mensurável, analisar o que inicialmente talvez não fosse passível de análise.  O grande risco seria o de reduzir a complexidade a um cientificismo e a uma formalização que trairiam o objeto, retirando-lhe o gosto, ou o seu sabor.  Daí o desafio do teórico no exercício de sua arte.

Note de bas de page 2 :

 E. Landowski, « Gosto se discute », in E. Landowski e José Luiz Fiorin (orgs.), O gosto da gente, o gosto das coisas, São Paulo, EDUC, 1997, p. 97-160.  Trad. ital. Gusti e disgusti : Sociosemiotica del cotidiano, Turin, Testo e Immagine, 2000.

Note de bas de page 3 :

 « Le goût des gens, le goût des choses », Passions sans nom, Paris, PUF, 2004, p. 241-305.

Note de bas de page 4 :

 Les interactions risquées, Limoges, Pulim, 2005.  Trad port., As interações arriscadas, São Paulo, Estação das Letras e das Cores, no prelo.

Essa problemática não é nova para o sociossemioticista.  Encontra-se uma primeira versão de suas reflexões sobre o gosto já num livro de 1997 organizado com José Luiz Fiorin, no qual o gosto se introduz como objeto « que se discute », em direção contrária, portanto, ao senso comum expresso pela máxima De gustibus non disputandum est2.  Uns sete anos depois, esse texto aparece reformulado, esta vez em francês, sob a forma de um longo capítulo de Passions sans nom3.  A versão de 2013 que aqui nos interessa, publicada pelo Centro de Pesquisas Sociossemióticas, embora quantitativamente mais reduzida que as anteriores, não se constitui apenas como síntese mas evidencia novas etapas do raciocínio, a partir das reflexões do autor sobre regimes de sentido e de interação4.  Nela, também fica mais visível a influência da fenomenologia de Sartre, e a consequente recusa a um sujeito concebido por um viés essencialista ou determinista.  O sujeito landowskiano/sartriano é um constante vir a ser, a construir-se na relação com o outro e o mundo, o que traz luzes para pensar o problema do gosto.  Após apresentar as grandes linhas desse último texto, propomos alguns questionamentos.

Experimentar as gentes e as coisas

Note de bas de page 5 :

 Para cada tribo, os seus próprios gostos.

Na sua tentativa de construir uma problemática propriamente semiótica do gosto, o autor procede primeiramente por uma serie de recusas.  Em primeiro lugar, é necessário, segundo Landowski, ultrapassar o entrave constituído pela visão mais comum do gosto, a subjetivista, que restringiria tudo à esfera do particular, do íntimo, por remeter ao próprio núcleo identitário e irredutível do sujeito.  Uma vez considerada, tornaria inacessível qualquer projeto que visasse ir além de meras constatações : « Cada um com seu gosto ».  Nessa perspectiva, diante de uma possível incompatibilidade entre preferências, seria melhor calar-se, evitando o desgaste de uma discussão.  Uma segunda proposição que recebe atenção do autor vai no sentido inverso, o de uma abordagem objetivista, aquela que considera a « existência de formas arquetípicas transcendentais, perfeitas por natureza » (p. 18).  Nessa linha, que encontra eco no pensamento platônico, o sentimento do belo depende da conformidade do objeto a padrões universais de beleza, por isso mesmo, também, inquestionáveis.  Versões mais recentes do objetivismo poderiam ser encontradas nas ciências que se ocupam de explicar o gosto a partir das conformações neurobiológicas, sendo nossas preferências determinadas por disposições físicas que reagem a dadas mensagens químicas que atuam sobre o corpo.  Tudo seria explicado, assim, pela cumplicidade entre aspectos do mundo físico e nossas sinapses neuronais.  Há ainda uma vertente relativista, de base sociológica e culturalista, sendo os gostos determinados, agora, por condicionamentos sociais : « à chaque tribu les siens »5 (p. 19).  Aqui, o gosto é relativo à cultura, ao momento histórico, a um aprendizado social, exterior, portanto, a um elemento que encontrasse abrigo numa essência individual.

Ora, portanto, o gosto se encontra no âmago do sujeito, concebido de um modo essencialista ; ora dado naturalmente no mundo, escapa à subjetividade, cabendo ao sujeito seu mero reconhecimento ; ora foge a sua consciência, porque se encontra inscrito numa matriz biológica ou ainda histórico-social.  Em todos esses casos, o sujeito é sempre idêntico a si mesmo e as relações sensíveis com o outro e o mundo não o modificam, obedecendo a uma predisposição para apreciar ou recusar o que se lhe apresenta à frente.  Distinguindo-se das abordagens assim repertoriadas, Landowski apresenta, então, a perspectiva interacionista que corresponde à posição assumida pela sociossemiótica.  Segundo esta, « o gosto corresponde a uma problemática do sentido, ele mesmo considerado como efeito de uma interação » (p. 19) :

o gosto, enquanto efeito de sentido, se constitui caso a caso no processo recíproco entre sujeito e objeto em favor de seu encontro enquanto parceiros em interação. (…) Ele se constrói em ato, no ajustamento entre as qualidades sensíveis imanentes ao mundo-objeto e a competência semioestésica de corpos-sujeito que o encontro com essas qualidades põe a prova.  (p. 20)

Ao preconizar uma abordagem mais fenomenológica, de explícita inspiração sartriana, o teórico reorienta a questão para a dimensão das práticas de interação, seja considerando a relação com os objetos, seja com outros sujeitos, respectivamente correspondendo ao gosto das coisas e ao gosto da gente.

Note de bas de page 6 :

 O ajustamento é compreendido como um dos regimes de interação, nos quais os parceiros coordenam suas ações, um frente ao outro, em função de um princípio de sensibilidade, ou seja, mediante dada consistência estésica do objeto em relação com dada competência estésica do sujeito.  Cf., do mesmo autor, « Sociossemiótica : uma teoria geral do sentido », Galaxia, 13, 27, 2014 (http://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view /19609).

Do ponto de vista do gosto das coisas, interessa o modo como as experimentamos, como provamos o mundo, considerando as « qualidades sensíveis imanentes a esses elementos e nossa própria disposição de as experimentar » (p. 17).  Pode-se gozar dos objetos reduzindo-os a corpos com os quais se entretém uma relação unilateral, seguindo a lógica da junção, sob a qual o gosto parece ser reduzido a uma de suas dimensões (a da conjunção, concebida como « posse »).  Mas a « plenitude » (accomplissement) se encontraria somente na reciprocidade, característica do regime de união, mediante um « ajustamento »6 que supõe que o sujeito seja disponível para « experimentar o mundo como um espaço povoado de presenças que demandam sentido » :

[...] para alcançar a plenitude do prazer que pode lhe proporcionar o encontro com o outro, é necessário que o sujeito que escuta, ou que olha, seja capaz de atribuir (semanticamente) ao objeto (sintáxico) todas as competências (modais) de um actante sujeito que seria animado por uma intencionalidade.  (p. 30)

Já o gosto das gentes refere-se a práticas sociais dos sujeitos e a construção desua identidade.  Remete ao modo como o gosto se inscreve numa ordem social e à necessidade de mostrar-se (ou não) em conformidade com o que se espera quanto ao « bom gosto » — noção evidentemente variável tanto segundo o meio ambiente em pauta, quanto, em cada meio social, em função da passagem do tempo, como o comprovam as mudanças da moda.  O teórico levanta nesse momento um problema que parte de duas constatações.  A primeira remete a uma inconsistência paradigmática, uma vez que apresentamos simultaneamente gostos em princípio inconciliáveis (por exemplo, adornar a casa com elementos que denotam, ao menos do ponto de vista imaginário, elegância, e simultaneamente com o que há de pior débraillé).  A outra é que nossos gostos individuais mudam com o tempo (ter preferido ontem as saias curtas e, hoje, as mais compridas), manifestando, pois, uma inconstância sintagmática.  Uma explicação seria encontrada no esforço de entrar em conformidade com o outro, adotando a cada momento o que é « socialmente prestigiado », visto como « ideologicamente correto », ou « pragmaticamente benéfico ».

Tematiza-se, portanto, a necessidade de « agradar » os demais, convergindo para um prazer não somente socialmente partilhado mas constituído pelo próprio « estar junto », na « comunhão » de todos com um mesmo objeto de valor.  Entram aí uma série de implicações relativas aos interesses sociais que regulam as dinâmicas interacionais.  Se o sujeito pode aderir ao gosto comumente aceito por genuína adesão — por que realmente « gosta », estesicamente, de tal ou outro objeto na moda —, ele pode, também, apenas fingir « que gosta », isto é, simular um prazer que não sente, com vistas a satisfazer outra dimensão do seu estar-no-mundo, a do gosto, social mesmo (e não mais estésico), que o faz procurar o bem-estar de sentir-se aceito entre pares.  Podemos, de fato, em dadas circunstâncias, ocuparmo-nos tão somente de agradar aos outros, sem agradar a nós mesmos.  Submetendo-se às preferências mais ou menos momentâneas dos outros no intuito de agradá-los, acaba então o sujeito ocupando o papel actancial de objeto, isto é, de objeto do gosto dos outros.

A partir dessa possível explicação para o aspecto cambiante do sujeito, o teórico propõe que há duas formas de « felicidade » implicadas no problema do gosto : a do gosto de gozar (le goût de jouir) e a do gosto de agradar (le goût de plaire).  No primeiro caso, estamos diante da « propensão para encontrar estados eufóricos que dependem das qualidades dos objetos sensíveis com os quais entramos em relação » (p. 25), quer se trate da materialidade das coisas ou da presença carnal do outro.  No segundo, está implicada a dimensão social do gosto.  Assim, as coisas que compramos, os livros que lemos, as roupas que vestimos forjam nossa imagem diante dos outros, produzindo atrações ou repulsões.

Note de bas de page 7 :

 « Avoir prise, donner prise », Actes Sémiotiques, 112, 2009.

Seja do ponto de vista do gosto da gente, seja relativo ao gosto das coisas, as experiências do gosto estarão a depender  ademais dos diferentes regimes de interação considerando práticas de reciprocidade ou unilaterais.  Para isso, não importa que se trate de nossas relações com outros sujeitos ou com objetos do mundo.  O que conta é se tomamos o « outro », qualquer que seja sua forma e seu estatuto, como verdadeiro parceiro, ou se a ele nos reportamos de modo essencialmente utilitário, submetendo-o, ou ainda a ele nos submetendo.  Essas dinâmicas interacionais recebem especial atenção por parte de Landowski em Les interactions risquées e « Avoir prise, donner prise »7.

Tal teia de relações conduz a um modelo que se organiza entre formas de agradar e formas de gozar.  Conforme explicita no esquema, pode-se agradar e ser agradado, ou gozar e permitir ou, melhor, com a condição que o outro também goze — duas formas da reciprocidade —, ou apenas agradar o outro sem se preocupar em ser agradado, ou também gozar excluindo o outro do gozo —  dimensão da unilateralidade.  Tudo depende, pois, da natureza das relações, simétricas ou não, que estabelecemos nas interações, na partilha ou exclusão do outro ante a experiencia vívida.

Note de bas de page 8 :

 Algirdas J. Greimas, Da imperfeição, São Paulo, Hacker, 2002.

A isso o autor acresce o que denomina como « políticas do gosto ».  Além dos aspectos propriamente estésicos, que por definição supõem uma forma de « contato » entre actantes, há que se considerar também a dimensão « ethológica », relacionada à dimensão contratual de nossas relações com outros sujeitos.  Entra em questão, como adverte o autor, uma « gramática da civilidade », o que faz com que o gosto esteja submetido também a sua aceitabilidade.  Tal  dimensão ethológica atua na « des-sensibilização do real » e na « des-realização do sensível ».  O exemplo de que se serve é o de Palomar, personagem do conto de Ítalo Calvino, que mereceu a análise de Greimas, em Da Imperfeição8.  Palomar extasia-se frente aos seios femininos que avista na praia.  Sua atenção é sentida como inconveniente, causando reação negativa por parte da moça, que se apressa por escondê-los, ressentida com a impertinência.  O gosto, desse modo, não está sempre disponível, havendo uma instância de sanção social, que emerge do outro.

Finalmente, Landowski elabora uma nova estrutura sintática mediante as figuras de Apolo e Dionísio.  Apolo representaria o bem-estar, atendendo ao desejo do olhar do outro (gosto de agradar) ; Dionísio figurativiza o prazer, que olha e aprecia o « gostoso » do mundo (gosto de gozar).  Apolo, assim, se encontra como que na posição de objeto ; Dionísio, na de sujeito.  A partir das articulações, surge uma nova tipologia, convertida num diagrama elipsoidal que acolhe curvas em vez de ângulos, sendo as posições A, B, C, D estados que preveem metamorfoses possíveis e sucessivas.  Vale-se então de uma miríade de metáforas de animais e insetos, representando as variações de possibilidades de realização plena (« quadrúpedes desabrochados ») ou a submissão às contingências (« quadrúpedes resignados »).  Exemplos das metáforas zoológicas são a Vespa e o Camaleão, que disfarçam sua identidade para serem aceitos em seu meio.  A Vespa, contudo, ainda preserva seu cheiro — escondendo-o quando necessário para se proteger, mas recuperando-o uma vez passado o perigo — enquanto o Camaleão seria aquele que, de tanto dissimular-se entre os animais que o ameaçam, como os jacarés, pode acabar acreditando ser um deles, esquecendo-se de sua essência.

As múltiplas figuras aí representam as formas possíveis de revelar-se e esconder-se, de assumir os riscos de enunciar seu gosto ou o conforto da dissimulação, no pleno prazer de ver-se aceito e bem amado entre os seus ou na recusa ao senso comum, como o Urso que ignora os modos civilizados, apenas atento ao seu modo de ser, e de ser « à vontade ».  Certamente a figura máxima que recebe aí uma caracterização mais eufórica e maior atenção seja a que o sociossemioticista apresente como a do « homem de gênio », em essência um anti-conformista, figurativizado como Gato sonhador.  Impertinente, o gato é o animal que não se submete aos agrados, mantendo sua independência.  Utilizando-se do célebre poema de Baudelaire, Les Chats (e de sua análise por Lévi-Strauss e Jakobson), Landowski defende que o Gato representa a conjunção da ciência e do desejo, na sua sabedoria de tirar proveito na relação com as coisas mesmas.  É a figura do Gato, pois, que ensinaria o que estaria por ser empreendido por uma ciência do sentido — mais especificamente, do « sentido sentido ».

O que a sociossemiótica oferece para a compreensão do gosto é que este não se encontra já dado, como um enunciado inscrito nas coisas.  Está a depender de nossas relações sensíveis, do modo como nos articulamos com o mundo e o outro, cabendo à teoria avançar na compreensão da experiência estésica ela mesma.  É nesse sentido que gostaríamos de contribuir com alguns questionamentos.

Da insistência da alteridade

Note de bas de page 9 :

 Jean-Paul Sartre, L’être et le néant, Paris, Gallimard, 1943.

 Conforme discorremos inicialmente, a perspectiva interacionista trazida pela sociossemiótica em sua inspiração sartriana implica um modo de concepção do sujeito.  As concepções idealistas e deterministas são rejeitadas por remeterem a uma noção essencialista ou estática, imobilista, que acaba por desconsiderar a dimensão da experiência e da historicidade.  O sujeito se constitui na interação com as coisas e as gentes, o que significa pensá-lo em seu inacabamento, em processo permanente de um vir a ser.  Se a identidade então é dada na relação, não pode ser estanque, não se encontra em definitivo, no em-si, mas como projeto, em devir (para-si)9.  Por isso mesmo o gosto não pode se encontrar recluso na essência de uma identidade imutável, mas mediante o sabor do mundo, na aprendizagem e experiência com o outro.  Atrelar o gosto à identidade é possível apenas se a tomarmos na dimensão de seu inacabamento.  Daí a instabilidade do gosto — sua « inconstância sintagmática » —, a sua complexidade, que abriga contradições e aparentes incoerências – sua « inconsistência paradigmática ».  É precisamente nesse ponto que gostaríamos de problematizar algumas das posições de Landowski.

Note de bas de page 10 :

 Presenças do outro : ensaios de sociossemiótica II, São Paulo, Perspectiva, 2002, cap. 3, « Estados dos lugares ».

 Em seu trabalho, o caráter mutável do gosto vai ser explicado pelo desejo de o sujeito estar em comunhão com as preferências do outro ou os interesses de seu grupo social.  Submeter-se incessantemente ao gosto alheio atenderia, pois, a um projeto de base do sujeito — o de ser reconhecido, aceito, quiçá amado.  Mudando para se conformar, ele permaneceria, assim, fiel a si mesmo, a sua intenção primeira, a de agradar, fosse ao preço de camuflar, ou travestir-se.  Contudo, seguindo as próprias concepções expostas pelo autor em seus trabalhos, a relação com a alteridade resultaria em mudanças que, na realidade, ultrapassam essa dimensão mais pragmática, pois, se os gostos mudam, é porque os sujeitos mudam na relação com o outro.  Todos os aprendizados ao longo da vida, todos os acidentes e fraturas, todas as comoções e cataclismos que sofremos não permitem que permaneçamos os mesmos.  A positividade do outro provoca revisões de nossas certezas, a percepção de nossas lacunas, inconsistências e incoerências.  Visitamos novos lugares e conhecemos outras culturas, experimentamos novas paisagens nem sempre como o apressado homem de negócios ou o pragmático turista10 e o nosso próprio corpo se transforma em alguns casos tornando nosso passo mais lento para que o olhar possa deter-se mais demoradamente sob o mundo.  Somam-se em nós as histórias de amor e desamor, de conjunções e disjunções, abalando ou fortalecendo nossos edifícios.  Como permanecer ?  É certo que se podem esconder as verdadeiras convicções sobre o que nos causa prazer tendo em vista a aceitabilidade do que trazemos conosco e, nesse sentido, mudar para agradar pode ser uma boa estratégia, fundamental para a própria sobrevivência em alguns contextos, do mesmo modo como para camaleões e vespas.  Mas a mutabilidade do gosto não pode depender somente da vontade de se transformar (ainda que fosse somente na aparência) para agradar a algum outro.  Ela se produz também pelo efeito direto da experiência do contato com o Outro, seja ele pessoa ou coisa.  Nesse caso, não é o próprio sujeito que se transforma, reflexivamente ; ele é transformado, transitivamente, sob o efeito do contexto.

Não nascemos com um gosto já dado, o construímos e, desse modo, deve-se levar em conta um aprendizado para o sensível que encontra implicações na dinâmica cultural, o que não necessariamente implica a um assujeitamento pela ordem da cultura (representado pela abordagem « relativista »).  Sujeitos educados na mesma família, estudando nas mesmas escolas, submetidos aos mesmos bombardeios da massificação do gosto, tornam-se diferentes, subjetivam-se diversamente.  Nessa direção, entre nós e o mundo, o gosto das gentes se faz presente, porque não nos constituímos sozinhos, num movimento de fechamento, mas de abertura, negociação ou mesmo recusa, porque considerar a não mudança iria representar o esvaziamento do sentido da interação.  O outro, portanto, está de certo modo dentro de nós e se interpõe (e até antepõe) na nossa relação com as próprias coisas e é das práticas com o outro que emergem aprendizados e saberes que tornarão mais tônicas ou átonas as intensidades das nossas relações sensíveis.  Visitamos uma cidade turística ou uma exposição de arte porque de algum modo o sentido do lugar ou das obras que encontraremos nos foi prometido, antecipado, o que potencializa nossa relação sensível.  Para usar uma expressão de Greimas em Da Imperfeição, há uma promessa de « bem-aventurança » do encontro do sujeito com o objeto.  A  predisposição para o sentir, a que se refere Landowski, é assim, em parte, construída por essas promessas, venham elas das propagandas que nos incitam para um filme ou dos relatos entusiásticos que conosco compartilha um amigo sobre um prato num certo restaurante.  Gosto das gentes e gosto das coisas encontram-se, pois, imbricados.  Pensemos algumas situações.

Situação 1 : Meu coração dispara quando ouço o primeiro movimento da bateria de uma escola de samba.  O som age sobre meu corpo euforicamente, anunciando o prazer que há de vir, porque eu sei o que há de vir, pelas experiências de ouvir o som potente da escola de samba e pelos efeitos que antecipadamente espero que se produzam em mim.  Em outro sujeito tal experiência pode ser absolutamente indiferente, ou sentida de outro modo, simplesmente porque o que move seu coração são os agudos e graves de outro tipo de configuração musical ou porque os instrumentos de percussão lhe traduzem tão somente estranhamento, reconhecendo o exotismo de um precário artefato musical.  Algo na minha constituição histórica de sujeito me tornou mais sensível para o samba, enquanto outro poderá desprezá-lo.  Se estou há algum tempo no exterior e o som de uma bateria me chega aos ouvidos, o exílio possivelmente me tornará ainda mais predisposta emocionalmente ao prazer do samba, como se minha identidade (fragmentada, instável, dispersa) subitamente gozasse de um instante de plenitude, traduzindo-se, na nostalgia revelada por uma ausência, a de casa.  Poderíamos pensar, portanto, que houve uma espécie de determinismo cultural, mas nem todos do mesmo país e da mesma classe social apreciarão o mesmo estilo musical.  Pensemos ainda que um francês morasse um certo período no Brasil e lá tivesse conhecido o samba, aprendendo a apreciá-lo não apenas para aderir ao gosto majoritário, mas porque seu corpo passou a reagir prazerosamente aos efeitos do ritmo.  A Piaf somou-se Jamelão.  Não se trata de agradar somente, mas de aprender a gostar no convívio com o outro e talvez seja esta ainda uma forma de atualização do gosto da presença do outro, agora ausente.

Note de bas de page 11 :

 http://www.musee-orsay.fr/index.php?id=649&tx_ttnews[tt_news]=37162&no_cache=1

Situação 2 : Imaginemos um visitante à exposição de um dado museu.  Suponhamos que se trate do Musée d’Orsay, em Paris, e que a exposição a ser visitada seja « Van Gogh/Artaud : le suicidé de la société ».  Conforme o site do museu11, lá o visitante encontra algumas dezenas de quadros, uma seleção de desenhos e cartas do artista holandês, além de uma seleção de escritos e desenhos de Antonin Artaud.  Em 1947, por ocasião de uma exposição, o galerista Pierre Loeb solicita a Artaud um texto sobre Van Gogh.  Assim como o pintor, Artaud passou por internação em clínica psiquiátrica e o texto que escreve sobre o artista seria uma resposta contundente à publicação de Du démon de Van Gogh, por Beer.  Artaud contesta a tese da loucura de Van Gogh, defendida por Beer, argumentando que o artista foi « suicidado » por uma sociedade incapaz de apreender a dimensão das telas do expressionista.  Já pelo título da exposição, que toma como mote o texto de 1947, temos indicadores da perspectiva assumida pela curadoria : há dois sujeitos postos em diálogo, dois artistas, e um texto que marca a relação entre os dois.  Artaud fala de Van Gogh, dos sofrimentos e internações que este sofrera, além de descrições e considerações sobre alguns de seus trabalhos, mediante visitas à exposição daquele ano, no Musée de l’Orangerie.  Identifica-se com sua dor diante do mundo.  Não nos deteremos a analisar o texto de Artaud, nem as telas selecionadas, nem discutiremos os sentidos que emergem dessa exposição a partir da multiplicidade de textos e imagens sob a perspectiva de uma enunciação sincrética.  

O que nos interessa aqui é discutir como essa organização curatorial, além de todos os textos da mídia, etc., que falam da exposição (algumas reduzindo tudo a uma discussão sobre a loucura), complexificam nosso modo de ver as pinturas.  O sujeito que vai à mostra saberá não apenas de Van Gogh (pelo que se revela nos fragmentos de cartas ou nas telas), mas também de Artaud.  E o texto de Artaud orienta para um modo de pensar o artista, como também sua obra.  O que é redimensionado nesse complexo diálogo ?  Emerge mais do homem ou de sua pintura ?  Ou de ambos, conjuntamente ?  Por fim, há os audioguides, trazendo uma série de informações sobre os trabalhos, com descrições e indicações de sentidos.  O olhar sabedor de tudo isso percebe de modo diferente as pinturas ?  A luz que emerge das telas, certamente precariamente reproduzida por múltiplos meios, convoca de modo original aquele que enfrenta a multidão de corpos para finalmente poder experimentar a bem-aventurança do encontro prometido ?  O que não pode ser prometido e que o corpo experimenta sem saber dizer ?  De qualquer modo, há toda a história da arte orientando para o gosto, a confirmação do objeto pelo museu que o acolhe, as filas imensas para a compra dos ingressos prenunciando o que há de vir, o gosto da gente anunciado em todo lugar.  E depois, finalmente, ultrapassando todas as camadas, todas as interferências, todos os sentidos, tendo visto o que se estava para ver, o sujeito regressa o mesmo para sua casa ?  Estará modificado seu modo de olhar o mundo ?  

Passa a apreciar Van Gogh tão somente para aderir a um consenso estético ou teve seu gosto convertido por força dessas múltiplas informações e relações, além da presença sensível das telas ?

Considerações finais

Com uma escrita que reúne objetividade sem deixar de lado o poético, Eric Landowski evidencia que uma teoria « sensível » do sentido não se poder furtar a uma teorização sobre o gosto.  Não apenas sabemos das coisas, mas as provamos, temos com elas prazer ou desprazer.  Constituímos nossa identidade a partir dessas seleções, aceitações e recusas.  Partilhamos nossos gostos como modo de nos fazermos conhecer e sermos aceitos (ou expulsos) da república.  Do mesmo modo, não apenas interagimos com os outros e com mundo : assumimos e/ou delegamos papéis actanciais que implicam modos de sentir e provar, buscando a reciprocidade ou a solidão diante do gosto do mundo e do outro.  O pesquisador orienta as investigações situando-as no plano das relações sensíveis, convocando os demais a prosseguir na tarefa, evidenciando o que há por ser ainda feito.  Que guardássemos a impertinência e independência dos gatos, sem nos recusarmos a sentir o gosto das coisas que buscamos descrever.

Traduzir uma parte (a da experiência) na outra parte (a da ciência), na sua tentativa de dar conta dos sentidos da vida, não seria o desafio de uma teoria que não recusa a sua arte ?  E não seria o caso de ainda considerar que a teoria nos modifica ainda como sujeitos, orientando-nos para um modo de experimentar o mundo e falar dele?

Bibliographie

GREIMAS, Algirdas J., Da imperfeição, São Paulo, Hacker, 2002.

LANDOWSKI, Eric, « O gosto se discute », in E. Landowski e José Luiz Fiorin (orgs.), O gosto da gente, o gosto das coisas : abordagem semiótica, São Paulo, EDUC, 1997.

— e José Luiz Fiorin (a cura di), Gusti e disgusti : sociosemiotica del cotidiano, Torino, Testo e Immagine, 2000.

Presenças do outro: ensaios de sociossemiótica II, São Paulo, Perspectiva, 2002.

Passions sans nom.  Essais de socio-sémiotique III, Paris, PUF, 2004.

Les interactions risquées, Limoges, Pulim, 2005.  Trad port., As interações arriscadas, São Paulo, Estação das Letras e das Cores, no prelo.

— « Avoir prise, donner prise », Actes Sémiotiques, 112, 2009.

Pour une sémotique du goût, São Paulo, CPS, 2013.

SARTRE, Jean-Paul, L’être et le néant, Paris, Gallimard, 1943.

Notes - document

1  Pour une sémotique du goût, São Paulo, Centro de Pesquisas Sociossemióticas (Documentos de estudo, 6), 2013.

2  E. Landowski, « Gosto se discute », in E. Landowski e José Luiz Fiorin (orgs.), O gosto da gente, o gosto das coisas, São Paulo, EDUC, 1997, p. 97-160.  Trad. ital. Gusti e disgusti : Sociosemiotica del cotidiano, Turin, Testo e Immagine, 2000.

3  « Le goût des gens, le goût des choses », Passions sans nom, Paris, PUF, 2004, p. 241-305.

4  Les interactions risquées, Limoges, Pulim, 2005.  Trad port., As interações arriscadas, São Paulo, Estação das Letras e das Cores, no prelo.

5  Para cada tribo, os seus próprios gostos.

6  O ajustamento é compreendido como um dos regimes de interação, nos quais os parceiros coordenam suas ações, um frente ao outro, em função de um princípio de sensibilidade, ou seja, mediante dada consistência estésica do objeto em relação com dada competência estésica do sujeito.  Cf., do mesmo autor, « Sociossemiótica : uma teoria geral do sentido », Galaxia, 13, 27, 2014 (http://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view /19609).

7  « Avoir prise, donner prise », Actes Sémiotiques, 112, 2009.

8  Algirdas J. Greimas, Da imperfeição, São Paulo, Hacker, 2002.

9  Jean-Paul Sartre, L’être et le néant, Paris, Gallimard, 1943.

10  Presenças do outro : ensaios de sociossemiótica II, São Paulo, Perspectiva, 2002, cap. 3, « Estados dos lugares ».

11  http://www.musee-orsay.fr/index.php?id=649&tx_ttnews[tt_news]=37162&no_cache=1