Prólogo: Uma organização social pós-pandêmica? Prologue: A post-pandemic social organization?

Felipe PARRA 

Full text

Version PDF 125 ko

Passados dois anos da declaração da pandemia pela Organização Mundial da Saúde, ainda vivemos e convivemos com o vírus e suas mazelas: conforme dados da John Hopkins University o dia 20 de abril 2022 contabiliza 505 milhões 193 mil pessoas infectadas desde o início da pandemia e 6 milhões e 204 mil mortes, além de novos focos em Shangai vivendo outro lockdown e uma variante recombinada da Omicron, diferente das conhecidas variantes XE e XJ. Por todo o globo pessoas e governos com dificuldades econômicas e financeiras. Na Ucrânia uma guerra.

Os processos globais são vividos pelas pessoas em seus lugares, ainda que estejam conectadas com o que ocorre em várias partes do mundo (Santos, 1996: 251). A pandemia em curso, em alguns lugares com mais controle e vacinação, demonstrou e alargou ainda mais as distâncias existentes entre os lugares. Essa categoria analítica importante, dado que a localidade ao mesmo em que se contrapõe à globalidade, dialeticamente, também participa dela, nos faz ver e sentir o mundo graças a proximidade. Entretanto, exatamente ela, a proximidade, nos foi proibida durante a pandemia. O agravamento das distâncias não foi apenas econômico e financeiro, mas social também. A noção de copresença a nós negada foi substituída pela cooperação salvadora das distâncias.

Pessoas desconhecidas entre si, em vários setores, foram chamadas a se manterem presentes, visando o bem-estar coletivo. Correram riscos de vida para salvaguardar tantas vidas. E não falamos apenas de profissionais de saúde, importantes sem dúvida; mas motoristas de ônibus urbanos e interestaduais, empregadas domésticas, cuidadoras e cuidadores, coletores de lixo e varredores, taxistas, servidores públicos de manutenção urbana, balconistas de farmácias, motoboys, cozinheiras, para quem não houve o privilégio de esperar uma pós normalidade, ao menos no aspecto laboral.

Pós normalidade que nos faz pensar os anos anteriores com uma perspectiva de passado pré-crise. Para mulheres e homens em 2022, o longínquo 2019, com sua cotidianidade já abrandada pelo tempo decorrido e pelo abrandamento da percepção dos problemas vividos parece um período, que se pode chamar, de normalidade. E com essa sensação de que, em algum momento, tivemos domínio dos acontecimentos de nossa vida, talvez seja melhor não questionamos a possibilidade, tanto da normalidade quanto do domínio dos acontecimentos, tanto faz se em 2019 e 2022 ou 2050.

Outros questionamentos na pós-normalidade devem ser feitos? Por exemplo, na pós-normalidade de 2022 cabe assimilar tão rapidamente uma guerra, iniciada apenas em 24 de fevereiro na Ucrânia? E assimilar rapidamente que já temos mais de 5 milhões de refugiados?

O economista Nassib Caleb (2020: 137) afirma a importância da antifragilidade e de ser antifrágil, ou seja, aproveitar os momentos caóticos para evoluir e ‘abraçar’, mais e mais, as chances oferecidas pelo caos e avançar para além da resiliência, pois ela não nos transforma e, para o autor, não ser antifrágil representará sucumbir aos processos futuros.

Propostas de pós-normalidade são oferecidas desde a ciência até seitas recém criadas mundo afora. Porém, “a realidade aponta para o futuro como tendência. O futuro (no plural, pois, na verdade, em cada momento os futuros são muitos) pode apenas ser reconhecido pelas tendências, que são manifestações do real orientadas às mudanças” (Santos, 1990: 110) e a tendência mais esperada é o aprofundamento da transparência das informações em todas as áreas que implicam a vida cotidiana (saúde, segurança, por exemplo) e cada vez mais participação popular nas decisões que afetam a totalidade da população.

A post-pandemic social organization?

Two years after the declaration of the pandemic by the World Health Organization, we are still living and existing with the virus and its ills: according to data from John Hopkins University, April 20th of 2022 accounts 505 million 193 thousand people infected since the beginning of the pandemic and 6 million and 204 thousand deaths, in addition to new outbreaks in Shanghai having another lockdown and a recombined variant of Omicron, different from the known variants XE and XJ. All over the globe people and governments are struggling economically and financially. In Ukraine there is a war.

Global processes are experienced by people in their places, even though they relate to what happens in various parts of the world (Santos, 1996: 251). The ongoing pandemic, in some places with more control and vaccination, demonstrated and further widened the existing distances between places. This important analytical category, given that the locality, while opposing globality and dialectically, also participates in it, makes us see and feel the world thanks to proximity. However, exactly it, proximity, was forbidden to us during the pandemic. The worsening of distances was not only economic and financial, but social as well. The notion of co-presence denied to us was replaced by cooperation that saves distances.

People unknown to each other, in various sectors, were called to remain present, aiming at the collective well-being. They risked their lives to safeguard so many lives. And we're not just talking about health professionals, who are undoubtedly important; but urban and interstate bus drivers, maids, caregivers and caregivers, garbage collectors and sweepers, taxi drivers, public servants of urban maintenance, pharmacy clerks, delivery bikers, cooks, for whom there was not the privilege of waiting for a post normality, when less in terms of work.

Post normality that makes us think of previous years with a perspective of the pre-crisis past. For women and men in 2022 the distant 2019, with its daily life already slowed down by the time that has elapsed and by the softening of the perception of the problems experienced, seems like a period which can be called of normality. And with this feeling that at some point we have mastered the events of our life, perhaps it is better not to question the possibility, both of normality and of the mastery of events, whether in 2019 and 2022 or 2050.

Should other post-normality questions be asked? For example, in the post-normality of 2022, is it possible to assimilate so quickly a war, which started only on February 24th in Ukraine? And quickly assimilate that we already have more than 5 million refugees?

Economist Nassib Caleb (2020: 137) affirms the importance of antifragility and being antifragile, that is, taking advantage of chaotic moments to evolve and 'embrace', more and more, the chances offered by chaos and move beyond resilience, because it does not transform us and, for the author, not being antifragile will represent succumbing to future processes.

Post-normality proposals are offered from science to newly created sects around the world. However, “the reality points to the future as a trend. The futures (in the plural, because, in fact, there are many futures at each moment) can only be recognized by trends, which are manifestations of the real oriented to change” (Santos, 1990: 110) and the most awaited trend is the deepening of information transparency in all areas that involve daily life (health, safety, for example) and increasing popular participation in decisions that affect the entire population.