Por uma cultura altruísta 6.0 For an altruistic culture 6.0

Paulo Celso da Silva 

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Quando este número da Revista TraHs Meio ambiente: Desafios contemporâneos, foi pensado, nenhum de nós imaginava que estaríamos, neste momento de 2020, mundialmente falando prioritariamente de um só tema ambiental: a Corona vírus COVID 19. Os artigos dos autores desta edição não tratam desse tema, uma vez que nos foram entregues em janeiro deste ano, por isso, cabem algumas palavras que relacionem o tema da pandemia, corona vírus, meio ambiente etc.

Todo o processo começou no segundo semestre de 2019 e a China foi o primeiro país a sofrer o contagio e contabilizar seus mortos, o que imediatamente alastrou para muitos países, alterando toda a rotina produtiva de operários, estudantes, professores, donas de casa e, em especial, de enfermeiras/os , médicas/os e todos os agentes do setor de saúde.

Na maioria dos países as lideranças governamentais assumiram a responsabilidade de organizar outra rotina restringindo o movimento da população, incentivando e, mesmo obrigando, a prática da quarentena, então a maneira mais eficaz para evitar o aumento exponencial do contágio e evitar o colapso de seus sistemas de saúde. Ásia e Europa, os primeiros afetados puderam servir de exemplos do que fazer e do que não fazer, qual o momento necessário para começar, qual a logística assumir etc.

O presidente brasileiro foi um dos quatro no mundo a negar a pandemia, pediu para a população sair às ruas, inclusive incentivou manifestações que pediam a volta dos militares ao poder, sem perceber que, caso isso fosse atendido, ele seria o presidente deposto pelos militares, não acatou a ordem do ministério da saúde de evitar contatos e aglomerações e foi aos bairros de Brasília cumprimentar pessoas. Os outros foram com o ditador da Nicarágua que não acredita na ciência; o ditador do Turquemenistão que proibiu o uso das palavras Corona vírus e COVID 19 como forma de solucionar a questão; o ditador de Belarus que chegou a afirmar que o tema do corona vírus era psicose. Enquanto isso, países como Argentina, Uruguai, Paraguai rapidamente cerraram suas fronteiras, decretaram a quarentena e assumiram a necessidade do isolamento e do uso de máscaras, como foi comprovado em todo o mundo.

Ao leitor estrangeiro cabe uma - possível - explicação do que acontece com a elite brasileira que elegeu tal presidente para o período de 2018 – 2022. Elite e governo eleito defendem os interesses de grupos capitalistas de várias partes do mundo baseados na exploração de produtos e matéria prima feitos de maneira tradicional, isto é, aqueles quem destroem para acumular, ignoram e defendem o fim dos direitos das pessoas e da natureza, promovem a destruição das áreas protegidas e terras indígenas e o assassinato de suas lideranças e de ambientalistas caso isso aumente seus lucros, enfim, os meios justificando seus fins apenas econômicos.

Parece não importar aos representantes no governo brasileiro – presidente e seus ministros - o fato de sejam representantes do “último suspiro” desse capitalismo selvagem e violento, de um capitalismo que já não cabe e nem é aceito nos países de onde originam esses grupos representados por eles. Importa apenas a esses representantes sentir “que pertencem ao capital internacional” mas, como a experiência já demonstrou, assim que retirarem todos os recursos naturais e humanos e destruírem ambiente e sociedades locais e verem seus lucros declinarem, partirão para outro território. Tais grupos do capitalismo selvagem internacional não tem nenhum compromisso moral e social com os territórios, a eles interessa apenas a acumulação.

Uma leitura desse momento seria a de que hoje o papel da América Latina na divisão territorial e internacional do Trabalho é a de representar os setores menos avançados tecnologicamente e socialmente, deixando para os territórios desenvolvidos os setores menos poluentes e rentosos das tecnologias informacionais.

A globalização, da maneira como já foi denunciada por muitos pensadores e estudiosos das questões contemporâneas, não nos trouxe a decantada melhoria das condições de vida, que as políticas neoliberais, ofereciam como solução aos mandatários: no lugar de unir pessoas, desenvolver o sentido de cidadania e participação – praticamente – impuseram o único exercício do consumir individual, e isso nos legou seres que se auto valoram pela quantidade de bens de consumo e acúmulos financeiros, na mais alienante representante desses senhores: nossa conta corrente bancária obrigatória.

Quanto mais globalizada as sociedades, mais fechadas às demais, competitivas e individualistas elas tiveram de se tornar para fazer frente às demandas infinitas que o capital neoliberal opera. Mais de uma vez tais sociedades, e seus personagens mais destacados, foram comparados ao personagem de Fausto no poema trágico criado por Goethe e no qual o desenvolvimento e um tipo de progresso justificam os meios que o personagem principal usa para os atingir.

Entretanto, não todos os setores sociais foram tragados. Isso nos faz lembrar das propostas de Edward Wilson (O sentido da existência humana, 2018) para quem há duas forças na seleção das espécies. Uma seleção individual, conhecida da maioria das pessoas, em que a concorrência individual dentro do grupo e ganha o mais forte e preparado, é o gene egoísta. A outra seleção ocorre nos grupos de indivíduos em que juntos fomentam a cooperação, é o gene altruísta.

Os primeiros meses de 2020 remetem ao segundo grupo, os da cooperação. Impedidos de continuar no mesmo ritmo produtivo do 24/7 (24 horas, sete dias por semana), inicialmente nos países desenvolvidos da Ásia e Europa e, posteriormente, em todos os demais, algumas alterações ambientais ocorreram, positivas como é o caso da diminuição nos níveis de NO2 e CO2, diminuição de problemas respiratórios, aparecimento golfinhos nadando no porto de Cagliari, capital da ilha de Sardenha e também a possibilidade que muitas plantas e animais em extinção tenham uma chance em terem seus ecossistemas mais equilibrados. Mas, ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer que a reclusão das pessoas também afeta a produção de alimentos, dado o seu maior consumo.

Note de bas de page 1 :

Entrevista da Prefeita Ada Colau para o jornal televisivo Globo News. 30 de abril de 2020.

Respondendo à uma emissora brasileira de televisão, a prefeita de Barcelona/Espanha Ada Colau1, ao ser indagada acerca da maneira que se daria o retorno às atividades afirmou que “vivemos uma tríplice crise: sanitária, social e econômica e é nossa responsabilidade desenvolver o altruísmo para o novo momento que virá e não apenas restauração de 2 meses, 20 anos ou um século atrás” (2020).

Note de bas de page 2 :

Entrevista para o live Talk CosmoCaixa - Fundación ”la Caixa”, Espanha – apresentado por Raul Toran em 24 de abril de 2020. Recuperado de https://bit.ly/LiveTalk_VirusyPandemias

Na mesma linha de pensamento, a bióloga e pesquisadora em Imunologia Adelaida Sarukhan2 no Instituto de Salud Global de Barcelona (ISGLOBAL) fala da necessidade da mudança de estilo de vida consumista, ao mesmo em que será preciso diminuir os desmatamentos, perseguir um sistema sanitário e uma expertise política que nos permita responder rapidamente aos acontecimentos futuros. Acontecimentos que necessitarão de paciência para o retorno à vida social. Destaca, entretanto, que “melhor são medidas proativas e a importância da comunicação clara e transparente para que o público confie nas autoridades, entenda e siga as recomendações”.

Note de bas de page 3 :

Comte, A. (2016). Discurso sobre o Espírito Positivo. São Paulo: Martins Fontes.

Ao escutarmos as pessoas, nos damos conta do surgimento, ainda um tanto modesto, de uma cultura altruísta, se assim podemos nos expressar, pois ao mesmo tempo em que traz novos comportamentos, também interioriza valores humanos atualizados, devido ao fato de quem não são novos, mas não são os mesmos de outrora. A nova cultura altruísta 6.0, inclui tudo que a sociedade já conquistou e acumulou de conhecimentos e experiências, ultrapassa a 5.0 na qual os espaços físico e cibernético estão conectados e os sensores dos equipamentos transformam tudo em dados, para estreitar e aprofundar o que já foi proposto por Auguste Comte3 em meados dos anos 1850 quando tratava dos problemas do egoísmo nas sociedades industriais. É interessante ressaltar a força e clareza da palavra altruísmo, quando em oposição à palavra egoísmo. Não vemos essa mesma força e clareza se comparamos a palavra egoísmo com a palavra bondade, por exemplo. Assim, o conceito de altruísmo opõe-se ao mesmo tempo ao egoísmo e também ao de caridade. E estamos diante do “grande problema da humanidade”, como dizia Comte, que era fazer valer o altruísmo acima do egoísmo, a individualidade sujeita ao social em uma moral baseada nos deveres.

Sempre gostei a expressão e da imagem que se forma, usada por Stéphane Mallarmé, Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (1897) ou um lance de dados nunca abolirá o acaso, em tradução livre. Pensada para este período, nos coloca a proposta de que nem sempre estaremos no comando das situações, teremos o controle de tudo como acreditámos ter no nosso [antigo] cotidiano.

A cultura altruísta 6.0 é uma comporta que poderemos abrir no fim desse primeiro confinamento do século XXI. Ou não.