Jorgelina Molina Planas

Transcontinental Human Trajectories

Prólogo: Pensar a temática e alternativas ambientais diante dos desafios do tempo-presente Prologue: Thought on the environmental theme and its alternatives facing challenges of the present time

Marcos Reigota 

Published on line 11 mai 2020

Full text

Provavelmente quando os e as editoras da Revista Trajetórias Humanas Transcontinentais pensaram em publicar um dossiê voltado para os desafios contemporâneos do meio ambiente não podiam imaginar que esses desafios estavam tão próximos e urgentes provocados pelo Covid-19. O vírus mutante começou a sua trajetória na China e além de, até o momento, ter matado milhares e colocado milhões de pessoas em quarentena pelo mundo afora, continua a sua saga provocando modelos econômicos, políticos, sociais, culturais e sanitários. Sua força devastadora coloca em suspenção os elos humanos mais elementares e desafia os modos de vida desrespeitosos e ou negligentes com o meio ambiente.

Um vírus conseguiu parar potências econômicas, militares e de passado histórico de dominação colonial como a Alemanha, a Espanha, a França, a Itália e o Reino Unido e redesenha a geoestratégia planetária colocando a China em destaque e no protagonismo ao qual se preparou nas últimas décadas, sem abrir mão do seu sistema político comunista controlador aliado ao modelo capitalista de produção mais primitivo, concentrador de riquezas e de injustiças sociais e ambientalmente irresponsável. Nesse contexto os EUA aparecem como uma caricatura das nações que tanto humilhou e cuja produção cinematográfica hollywoodiana fez questão de enaltecer. A cambaleante potência militar, econômica e cultural conta diariamente os seus milhares de mortos e milhões de desempregados e as ruas desertas de Nova York atestam o que está em jogo e quem tem se saído vencedor. A linguagem, as imagens e o vocabulário bélico se tornaram corriqueiros. Quem poderia imaginar que presenciaria o México fechar as suas fronteiras aos habitantes do país vizinho ao Norte? No Brasil, aos mesmos desafios de outros países, se acrescenta a posição oficial contrária às orientações da Organização Mundial da Saúde, apoiada por grande parcela da população marcada por crenças religiosas, aproximação e aprovação dos discursos autoritários e revisionistas da história ditatorial iniciada nos anos 1960 e que custa encerrar o seu ciclo. A lista de exemplos, fatos e argumentos pode ser exaustiva, se incluirmos aqui outros países e continentes e também se dialogarmos com os inúmeros textos e manifestações de artistas, acadêmicos e cientistas que ampliam nossos questionamentos, dúvidas e possibilidades nesse tempo de quarentena e distanciamento social. O temor da morte sem nenhuma dignidade e sem os rituais antropológicos de luto se tornaram temas cotidianos nas mídias e redes sociais expondo nossas fragilidades, representações e alternativas caso, evidentemente, haja alguma brecha construtiva advinda das experiências pessoais e coletivas nesse período de resguardo provocado pela pandemia.

Foi nesse contexto que li os artigos que compõem o dossiê e o trabalho dos e das colegas me permite evidenciar algumas ideias e conceitos que nos têm sido tão caros. Há décadas os movimentos, acadêmicos e sociais, relacionados com as questões ambientais enfatizaram uma noção que tem agregado as mais diferentes práticas, bases epistemológicas e orientações políticas no slogan “Pensamento local/ação global. Pensamento global/ação local”. Pensei imediatamente nesse slogan após a leitura dos textos dos e das colegas de diferentes nacionalidades, que atuam em diferentes contextos econômicos, culturais, científicos, políticos e ambientais. Derivada desse slogan se evidencia a necessidade do diálogo (planetário) em que todos aprendem e ensinam, como enfatiza a perspectiva politica e pedagógica de Paulo Freire. Entre os grupos sociais que nesse dossiê se fazem presentes destaco os Gilets jaunes que colocaram a França cosmopolita e centralizadora em alerta. Esse movimento exigiu, com contundência e pertinência, direitos reivindicados há tempos, expondo os sentimentos e desconfortos da população anônima e até então “invisível”. Do Sul do planeta são evidenciados grupos étnicos dos povos originários do Brasil e da Venezuela na constante e ininterrupta luta para não serem dizimados pelos poderosos colonizadores de antes e os de agora. Um outro aspecto que o conjunto dos textos nos permite abordar está relacionado com o papel dos meios de comunicação de massa e das redes sociais relacionando esse último com o surgimento do ciberativismo. A esse aspecto contemporâneo das práticas políticas e sociais, se unem as atividades que marcam as sociedades modernas, renovadas pelos desafios da temática ambiental, como os processos educativos escolares e os quadros jurídicos que permitem a mediação de conflitos. Tanto a participação politica dos anônimos, como as instituições politicas e jurídicas são fundamentais na construção de sociedades justas e democráticas nas quais a população mais vulnerável não é constantemente reduzida ao silêncio e à insignificância.

As lutas politicas travadas ao longo das últimas décadas em diferentes contextos e experiências com a democracia formal ou com a ausência dela, nos permite observar o histórico e continuidade da AGAPAN, um dos primeiros grupos ecologistas no Brasil que teve influência vital através de alguns de seus nomes mais conhecidos, como por exemplo José Lutzenberger, no período mais duro da ditadura civil-militar brasileira.

É uma excelente oportunidade para que a história da AGAPAN, possa ser melhor conhecida para além das fronteiras brasileiras é uma contribuição importante da Revista Trajetórias Humanas Transcontinentais ao movimento epistemológico e politico de se refazer os quadros teóricos e históricos dos movimentos ambientalistas negligenciados na literatura especializada internacional.

De forma geral se observa no conjunto de artigos a profunda relação entre os direitos humanos e a temática ambiental, assim como o apelo politico e pedagógico de ações locais voltados para questões como a biodiversidade, a mineração clandestina em terras indígenas, o meio ambiente urbano de cidades de médio ou de grande porte e os crimes ambientais, difundidos pela mídia hegemônica como acidentes incontornáveis e inerentes ao desenvolvimento econômico.

Encontramos, com o trabalho das e dos colegas, a oportunidade de ampliar os diálogos já existentes e os que poderão ser construídos, divulgar e expor as alternativas e revisitar os argumentos. Em outras palavras, os textos que as leitoras e leitores poderão acessar contribuem para que se possa rever referências teóricas, argumentos, conceitos e aprofundar compromissos políticos solidários e planetários. Que esse empenho originado e localizado em contextos acadêmicos que dialogam e se complementam, possa colaborar com o movimento cientifico, cultural, social pedagógico e politico de busca de alternativas contrárias à devastação ambiental e às injustiças, que inúmeras pessoas, grupos e instituições têm se empenhado ao longo da história pelo mundo afora.

SP. 03.05.2020.